Arte, porque a vida por si só não deu conta dela mesma





quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Sócia idade

A minha infância teima em brincar de ser verso
A adultez vem e me põe de castigo!
É um quarto branco na cabeça caixa sem palavras
A minha infância teima e ainda existo eu pra ela embaralhar
Quebra-cabeça!
E a adultez vem pra querer me encaixar...
A minha infância teima e pinta tudo de mar pra onda me levar
A adultez vem pra me jogar areia! Me pega e leva pela mão...
A minha infância teima, faz birra, diz não. Depois ri, querendo me zombar. Tava só brincando, eu sou criança, ué!

Minha adultez me brigou.
Minha adultez me adulou.
Minha adultez me perdeu.

Minha altivez outra vez.

Ânsia de re-ser (ATO I)

                                                          CRIANÇA
Essa tal lembrança                             r                                                                        
Faz uma baita lambança                  e
naquela minha criança                   s
Lá pra minha infância                  e
tem ladeira?                             R
                                             e 
                                           c
                                        s
                                     e
                                  r
                               c
                            e
QUERO           d              
                            e
                               c
                                  r
                                    e
                                       s
                                          c
                                             e
                                                R
                                                    e
                                                        s
                                                           e
                                                               r
                                                                  CRIANÇA

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Confeito de Palavras













Fechei o jornal e abri um livro de poesia
É fato que enfeito
Esse mundo desfeito

Confeito com palavras

Bala perdida pra mim
é doce de morango esquecido n’algum canto da favela
Favela, aquele monte de bloquinhos de madeira que o gigante montou
Dizem que lá tem mais bala de sabor pólvora
Nunca provei de pólvora mas acho que tem gosto amargo
E nem chocolate amargo é bom

Meu pai não me deixa brincar lá
Naquele monte de bloquinhos de madeira que o gigante montou
Queria ir com o aviãozinho, aquele menino que sobe e desce de lá o tempo todo
Meu pai disse que ele não é legal

Mas eu ouvi o aviãozinho dizendo que foi pegar um doce tinha dado um pipoco lá em cima...
Ele queria dizer pipoca, não sabe falar direito
Doce com pipoca não sei se é bom
Deve ser, pipoca com guaraná é...

Mas eu queria subir lá
No monte de bloquinhos de madeira que o gigante montou
Lá tem doce, um monte de balas perdidas e pipoco

É fato que enfeito esse mundo desfeito
E faço confeito de palavras.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Sax - ou melodia lacrimal

Penumbra...












Um sax.



Uma mulher



Ela entra.



Vazia



os pés descalços

os cabelos molhados

a mulher chove

lá fora

da janela

Vazia

a água escorre





um whisky na mão

Não.

Um cigarro, então.



Um sax toca

um vazio

Um microfone

Uma mulher...

Uma boca rósea, molhada, estúpida, tange ao microfone

Se esforça para o sussurro...



Oi, alow, oi

Tá quebrado?

Eu...

Tá quebrado.

Eu to quebrada

Eu to partida

Eu to sem canto

Eu olho em cada canto da cidade e vejo

Eu to partida

Em cada pedaço da cidade um canto meu

Um canto meu

To de...

Partida

Em cada sopro

eu

Em cada canto

da cidade

Um eu

ressoa

Um som

Um sax soa

Sempre sola

Um sax só

Quando esse nó no amor toca

Um sax chora

Quem nunca sentiu um sax solando baixinho assim?

Amor de papel




Pra acabar com esse amor de papel

dá aqui um lápis ou um pincel
dá dó riscar você


dou ré e penso si...


lá vou eu
mi embolo escrevo um compasso
amasso o esboço e começo


tudo de novo


si mi dó si mi ré si mi lá
sem fé não dá


jogo fora o anel
desfaço esse papel
e (re)ciclo
e um sol mi dá
vontade de epifanar
numa nota sola
essa música
que em si está






elA

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Ih, pingou, escorreu, escoou, sumiu, morreu

Talvez por isso eu não te dê nem mais pingos nos is
Por toda dor que já me deu
Por todo viço que roubou
Agora eu quero dobrar um papel de despropósito
e carregar no bolso da camisa
bem n'altura do peito.
O resto, dizia minha vó, sai no xixi.