Arte, porque a vida por si só não deu conta dela mesma





segunda-feira, 25 de agosto de 2014

"O CASAL - só que não"

Entreouvidos por aí (juro que é verdade)

Ônibus 157 vazio, eu entro e sento no banco alto, atrás do seguinte casal que inicia a seguinte conversa.
A- Cara, você é apaixonado por mim?
B - Eu me encantei por você.
A - Você me ama?
B - Não. 
A - Como não? 
B- não do jeito que você gostaria.
A - Como??? Segundo você eu sou bonita, amorosa, gostosa, criativa, dengosa, inteligente, talentosa, esperta, mágica, divertida, charmosa e você não me ama?
B- É, eu tenho carinho e te admiro e você não imagina o quanto te quero bem!
A - Muito carinho?
B - Muito.
A- Admira? 
B- É!
A - Jura mesmo?
B- Óbvio!
A - E me quer tão bem que eu nem imagino o quanto?
B - É! É isso! Eu tão bem e você não imagina o quanto, mas não tem como botar um crachá de Amor.
A - E por acaso então tem como na cama, no sexo, no encontro maior onde duas pessoas trocam toques intensos, afetos, energias, fluidos, eu me entregar completamente de corpo e alma considerando que temos meses e meses de relação a uma pessoa que diz que não me ama, que sente muito carinho por mim?
B - É... Eu entendo.
A - E o que a gente está fazendo juntos?
B - Boa pergunta.
SILÊNCIO
A deu umas fungadas e mexeu o braço levando a mão ao rosto. Acho que tava dando uma choradinha.
SILÊNCIO CURTO (mulher geralmente não aguenta mto tempo)
A - Você viu o lance do Saturno?
B - Nem...
A - vai passar tão perto da Terra que parece que vai dar pra gente ver. Tão dizendo que vai ser sinistro mesmo pra quem tá passando pelo retorno de saturno. Deve ser isso...
SILÊNCIO CURTO
A- Né?
B - Hã?
A - Nada não...
SILÊNCIO
SILÊNCIO
SILÊNCIO
SALTEI BEGE PÁLIDA NA PRAÇA SANTOS DUMONT, ESQUECI DE SALTAR NA ABBR, NO JARDIM BOTÂNICO.
Conclusão: silêncio gera congelamento e catatonismo.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Confessa.

ela dobra a esquina e aponta a arma pra cabeça dele, que coloca correndo um livreto no bolso.

A- Confessa?
B- O que?

A - Confessa!
B - Confessar o quê?

sliêncio
ela abaixa a arma.


B- Li seu texto.

ela mete a arma na cabeça dele de novo.


A- Leu mesmo?
B- Gostei mesmo. Você é intensa, né?
A - Como é que você sabe?
B - Se você tivesse que confessar alg...

Ela abaixa a arma

A- É... Isso eu não posso nem confessar. Nem negar. eu não posso negar, nem tentar esconder, nem tampar, acaba vazando pelos lados, alagando e todo mundo vê. Volto e meia eu me afogo, faz barulho. Todo mundo vê. Um grunhido, um uivo. Ouve-se de longe. Todo mundo vê. É que nem a lua. Ela tenta se fazer de escura, aí vem o sol, esquenta, explode, explana tudo. Escancarada na cara. Vaza pelos lápis e lábios e... B- ...e todo mundo vê, eu confesso. A- Dá pra ler? B- Dá. Tá estampada na tua página. Você fica nua. E todo mundo... A- Shhhhhhh.(
ela coloca o cano da arma em frente a sua boca) Isso é coisa dessa imaginação que mora na sua cabeça (entredentes, empurra a cabeça dele com a arma). Você pensa que vê, mas não lê.
B - Maktub A - Que? B - Maktub. Tava escrito. A - Nas estrelas? Também adoro astrologia! (solta a arma) B - Prefiro orgia. Silêncio. Ela vira pouco a pouco a cabeça pra ele com a sobrancelha esquerda levantada-indignação. B - De palavras. Orgia de palavras. Eu prefiro. A- As minhas? B - As suas, claro! A - Só as minhas? B - Só elas, exlusividade. A - Todas? B - Só uma ou outra que... todas, todas, claro que todas! A - Pode ir. B - Pra onde? A - Sei lá, pra onde você quiser! Pode ir! ele fica A - Vai! Anda! B - Vo-vo... vo-vo... vo... cê não vai me levar com você? A - Pra onde? B - Não sei, pra onde você estava indo? A - Olha só! Eu não iria a nenhum lugar com você que não fosse a lua! B - A gente tem uma lua inteira pra escrever? A - Você tem um foguete aí? Se você arrumar um foguete, eu vou com você! B - Mas aí eu que vou estar levando você! A - Anda logo com essa merda! B - Se eu que vou te levar, então vamos ter que começar tudo de novo, você me dá a arma, e aí vão ser as minhas palavras... A - Você não gosta das minhas palavras? Confessa! (coloca a arma contra a própria cabeça) Você não gosta! B - Não é nada disso, é só que... A (entredentes) - Confessa, se não eu aperto o gatilho! B- Tá, tá bom, eu não gosto das suas palavras. A - Não me convenceu! Confessa direito! B - Suas palavras são horríveis! A - Eu mandei vonfessar direitooooo!!! (tendo um ataque, se estribuchando) B - Tá bom!!!!! EU confesso!!! Suas palavras são.... sãooo... fétidas, paupérrimas as rimas, isso, paupérrimas rimas, fétidas, a prosa é um carcinoma, cada oração é... é... é... uma profanação, cada oração é uma profanação, figuras insosas, insólitas, você é um atentado contra a língua portuguesa! A - Tá vendo? B - O que? Eu tô dizendo!!! Fétidas! Fétidas, fétidas fétidas, quando não são insosas são fétidas, carcinoma, insólitas, fétidas!!!! A - Cheeeegaaaa!!!!!!! (dá um tiro pro alto e cai aos prantos) Eu sabia!!! Eu sempre soube. Eu sabia!!! (ela entrega a arma pra ele) Toma, você merece essa arma. Muito mais do que eu! Ela larga a arma e sai chorando.

TEMPO DA POESIA - encontro com um amor empoeirado

Engraçado. Acabo de achar perdido nesse espaço chamado Área de Trabalho esse texto/carta à um amor antigo. Eu cá, tentando dar ordem a algum caos que me pertença, ainda que seja a tela do meu computador, tropeço no tempo, dou de encontro com o pretérito e lembro que o que fica, quando passa, ganha além de poeira a poesia. Eu fui capaz de amar de novo toda aquela história que tinha ficado murcha e sem a beleza da flor partida, ficou brocha feito uma bexiga dessas de aniversário que se esvai desvairada pelor ares perdendo todo seu oxigênio até desmair-se patética ao chão. Pior. Ficou desmilinguida e resgada, feito balão que enche até não poder mais e estoura feito um tiro e morre ali mesmo, no susto.
Juro. Agora eu tenho certeza: amor é coisa pra se guardar do lado direito do Desktop. Eu fui capaz de amar uma lembrança cujo sentido, eu pensava, era cor vazio-pálido e desmilinguido demais pra mim. Só que eu encontrei o Tempo da Poesia e tudo virou cor  amor-empoeirado. Deixou de ser vazio-pálido e virou amor-empoeirado. Passei um tempo largo me perguntando de quem, afinal, era a autoria daquele texto, dele ou minha. As vezes ele escrevia no meu computador e, além de meu namorado, era - também - poeta. E além de também-poeta, começou a se arriscar a ser também-dramaturgo e começamos a escrever uma peça sobre o nosso "Começo", portanto ele poderia perfeitamente ter escrito algo onde eu fosse o eu lírico dele. Demorei um bocado nesta de reconhecer o defunto e tive de ir ao nosso histórico de mensagens pra me certificar de quem era o corpo. Sim, eu mesma havia escrito, mas ainda acho que esse texto é dele. Estranho isso, mas é o que senti. E foi aí que o sentido se fez: pela palavra. Sim! Pela palavra! E, de novo: sim! Foi de verdade. A gente se misturou de verdade ali. Eu li! E por não saber a quem a palavra pertencia, vi que a gente se pertenceu. Antes de se perder, a gente se pertenceu. Antes da gente tragédia, sim, a gente se poesia. E... Ou Nietzsche estava certo e "Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura" Ou eu sou mesmo louca e volta e meia vejo poesia onde não tem. Ou talvez seja a própria poesia uma doida que anda por aí feito uma epidemia contaminando uns e outros que preferem ver torto e andar descalço ainda que doa mais. Se não é doida nem doída,  acredito que a poesia seja mesmo uma cigana, uma fada, feiticeira, ou só mesmo uma aventureira, dessas que foge com o circo e aparece quando bem quer. E quando você está no espaço perdido tentando se encontrar, ela te acha. No tempo dela.

    A poesia se escondeu. Pediu um tempo pra ver se ainda sou um bom lugar de se morar. Não me perguntem, não sei onde ela está.
Lembro bem, não posso dizer que lembro “ainda”, pois não há muito ela veio cá pra essas bandas... Lembro bem dela, vindo à mim na minha janela, me acenando com oi tímido. “Te admiro de longe” ela dizia. Tinha uma fã, ora essa, ali, à minha espera.  Sim, ela estava a espera de vir me falar havia um ano já, me disse a poesia.  Não sabia ainda como vinha, mas o caso é que viera, após um bocado de espreita e de espera. A poesia veio me dizer  que me queria perto justamente pra falar o que ela mesma não sabia dizer. Pudera eu com esse convite não sentir um flerte? Era um palpite. Podia ser que a poesia não soubesse mesmo  falar coisa corriqueira, o papo, o dia-a-dia. Era isso que ela queria. Que eu fosse a palavra falada da moça Sol e da outra Lua, que inventara de colocar numa praia sob pretexto de que um fim pro mundo se anunciaria.

     E quem não abre logo de antemão a porta pra poesia? Ela toda mansa ali na janela, me falando em paixão,  em não saber, escrever súbito o amor, o eclipse, ela ali, minha visita, me olha me fita, poesia à primeira vista assim tão terna e abrupta, abri. Abri a porta e deixei-a entrar pela pele, entranhou-se logo na entrada, poesia vadia! Eu sentia e ficava lânguida, lancinante, assustada. Alucinava e não entendia porque. Era uma simples poesia. No fundo eu sabia que o medo era eu, minha avaria, o mal jeito com aquilo que admitir eu não queria, mas tinha gosto de paixão, ou parecia. Deixei estar, rimar e remar sobre mim.

    Eu e ela enroscamos nós com fé entre lencóis as nossas pernas, pés  versos e frontes, encanto nos olhos e palavras, músicas dedicadas e uma ligeira intuição fugaz de ali vivia amor e paz no peito descansado, no cafuné, café na cama, coração alado alçando vôo. A poesia virou sabiá e eu passarinha sou.


O que eu não sabia é que tardia era hora de chorar descálculo que lá atrás eu fingira que não via. Mentira. No fundo, eu previra que não adiantaria reza ou santuário:  mergulhar o lábio num aquário cheio de peixes desligados era como me jogar no mar bravo sem saber nadar e sem ter feito sequer inventário. Despreparo calculado, então? Se tem pathos não tem razão. Dioniso me tomou, mesmo abstêmia de sua bebida preferida. Tomara-me por inteiro num só gole. Eu dei mole, sei que dei. Deixo a confissão de que não domei a ousadia, dei-me a poesia e...  com ela fui feliz e fui mulher.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

TUM!

Falam por aí: 
dúvidas são minhocas na cabeça, 
Eis que descobri: 
de minhocas não tem nada.
Elas são mesmo pra lá de mil lagartas! 
Se arrastam, encaraminholam...
Venenosas... quase cobras...
E depois lindas: oh! são borboletas!
e voam espremidas, desgovernadas
Vem vento, vem ventania vem e voam
Síndrome da gaiola inquieta.
Minha cabeça é um borboletário duvidoso!
A causa de tudo no fundo faz
TUM TUM | TUM TUM | TUM TUM
Coração bandido. Atira contra mim!
Ai! Fura o casulo. Vou me arrastando.
TUM TUM | TUM TUM | TUM TUM
Coração banido!
Nem assim, não durmo.
Escrevo. Pra que não sangre.
,que a vida dança na suspensão do tempo que passa calado. E se deixa estar, repousado em nossas mãos: o sonho começa quando abrimos os olhos, sem rédias. E quanto menos arredios, quanto menos grilos, pios, mais terno corre o rio e irriga a aorta... viva que plantamos calmaria nos brios, planamos sobre abismos e abrimos asas céus de comunhão. Oração do cancioneiro, derrama-o na ciranda o silêncio que pulsa de mão em mão. Que a ciranda canta cura, escuta o silêncio de coração em coração.
Nessa ciranda é o universês, que cola tua palavra na minha e roda e roda e roda e faz a roda girar. #sph
Já ouviu a cantoria da noite no céu hoje? Quando criança pensava: esse sons... será que além de brilhar as estrelas falam?
Hoje, eu sei que elas falam.
Só que o universês não foi feito pra entender, mas pra ouver, sentir e trocar, não precisa de tudo isso que usei até aqui. Tudo isso embrulha só palavra, verbo, letra empilhada. O que é, é outra coisa. E é mais. Bem mais amém.

pés descalços

Meia pa

lavra cabe

 no meu pé de poesia.


Meia pa

 ixão já não.


Meia no

 ite então
 

no meu pé roça a ousadia.

...vejo estrela!

E danço blues com ella...

domingo, 16 de março de 2014

pé ante pé até a lua

Que atrás da lua... a poesia dance na sua alma nua que eu...
muda no seu compasso vá:
p - a - s - s - o - a - p - a - s - s - o.

Devagar...
passo a mão e a pele e a vontade na...
saudade passa a mão no meu... 
já estou cegamente derramada nos seus...
a noite há de abrir um portal de sonhos mágicos pra você.
Estarei lá na poesia, terceira à esquerda da estrela Amorius!!! Quarta estrofe, derramada sobre o beijo do anjo caído às tranças...

Carta de bem querer


A borboleta tirou o vento pra dançar.


Pincelaram cadências de todas as cores no ar e sumiram

sem som sombras 


de bom tom é partir 

deixar nas asas do enfeitiçar os  lençóis do hojecer!

O vôo tirou a borboleta pra pousar.

O vento leva e traz.

A brabuleta versa letra de frente pra trás.

um  desenho do vento poema o amanhã de ontem

venta o lema:

desenha nosso ar com carta de querer bem. 


deixe derramar o balde... coloque flores

COR VINHO-SAUDADE

                           




a porta entreaberta 


fresta passa a saudade lá 

cá o vento bate e pá. 
Eu abro e aporta o vácuo
levo nos braços afeto.
Aporto  amor no cais,
encontro.
casa, móveis, caos, fotos, desfocos.
       Sofá. Só falta.

   Almofada vazia.                                                                                    
Abraço morto.                                                                                    
Aborto a saudade.                                                                                   
Vinho do Porto.                                                                                
Vida em linha  torta.