Arte, porque a vida por si só não deu conta dela mesma





terça-feira, 24 de setembro de 2013

O CÉU ESTÁ VAZIO






Ela ora borboleta, agora passarinha
não cantarola,
mete o  bico, a pena, e escrevinha:

 Me desculpa
roubar teu silêncio?
Inventar de arrancar teu vício, teu viço?

 Me desculpa
inventar de tirar teu vento que venta brando?
teu documento e até o lenço?

 Me desculpa?
inundar tua poesia ,
invadir com mil palavras  tua paz?

 Me desculpa
abraçar feito Felícia tua causa?
Arrumar teu descaso?

 Me desculpa
meter meu bico na tua bagunça?
Bagunçar teu sossego?

 Me deculpa
esgotar teu poço?
secar tua sede?

 Me desculpa
o terremoto na tua rede?
tempestade no teu lago?

 Me desculpa
qualquer estrago?
qualquer harmonia, arranjo quebrado?

As flores murchas fora do vaso...

E a tpm, me me perdoa, faz da nossa melodia esse disco arranhado.
A nossa melodia, nosso mel de todo dia...

A nossa música nunca mais tocou? 
Desliga a vitrola, carambola!

Sinto muito, mil perdões...
o arroubo,  o escorpião
o tudo ou nada o senão
se não tudo vira bosta
em plena primavera
o que era uma vez
vai pelos ares 

os dois pombinhos...

se chamavam sabiá e passarinha
piu, você é meu
piu piu, você é minha
caem num céu de desencanto
trocam o repertório
assobiam a marcha fúnebre
depenados, dispensam o casório
Passarinha canta, desafina,
desbaratina alto,  perde o ritmo e a rima
sabiá pede silêncio
qualquer céu azul sem música
fica um cinza imenso
o silêncio corta tudo
muda o clima, nuvem, nubla
paisagem modo mudo
silêncio corta tudo
até asas de passarinha
que agora borboleta ,
vira lagarta, perde a cor, o azul e o ninho
se arrasta preta n'outro caminho 

o céu está vazio
nem mais um pio

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Poema pra saudade declarada de um amigo que me chama poetisa.

Poesia?
é a saudade que a gente sente
que enquanto não se declara
fica desenhando na mente
instante gostoso que parece ausente
mas tá ali,
transeunte passando na alma da gente
feito brilho de estrela cadente.

FLORES BÁRBARAS



20.09.2013
Após saltar do ônibus sob esse céu azul de setembro, andei uns cinco ou talvez sete minutos desorientada, indo e vindo, parando e voltando, pensando em sentar na calçada suja e por ali ficar, mas decidi que nem tanto,  indo e vindo e voltando até entrar numa loja de conveniência e entornar umas doses de cappuccino sabor alpino e alguns rios de lágrimas. Maluca, louca, insana? Talvez um pouco, mas nem tanto. Poderia estar entornando vodka e cocaína narina abaixo mas eram só cappuccino e lágrimas. 

A loja que abrigava a minha liquefação era aquela que fica ali num posto de gasolina bem na  Rua da Passagem no bairro de Botafogo do Rio lindo de Janeiro. Tentei ligar pro meu namorado e ver se ele me dava um cólo, um colchão, um caldo de compreensão, mas tem hora que a coisa só nossa mora só na gente e não adianta quem diga “siga em frente”.  É que tristeza as vezes se demora num tempo só dela e precisa descansar em banho maria até escorrer e escoar os ecos que vão sumindo e virando, no momento certo, pretérito.         


É bem verdade que há quem prefira e até goste do desgosto e desmorona e esmorece e escorrega o corpo porta abaixo e vai ao chão arrastando a dor até a cama, a alma desbruçada no dilema feito drama de cinema. Não é meu caso não. Até já foi. Mas não é mais.       

O que me fez ficar assim,  liquefeita e liquidada, foi uma roleta russa que acertou bem a mira e, entre rumores de suicídio, homicídio e genocídio - generalizada barbárie – atirou contra o jardim no coração implantado.                

 O caso é que não gosto de mortes. Não conheço quem goste embora saiba de povos orientais, eslavos e indígenas que celebram com rituais festivos a passagem de seus finados para outro plano. Outro plano, aqui, ainda não é o caso.        

Quem morreu?                

Tento fazer um inventário de relíquias memoráveis moradoras de mim e o que me vem são flaches recortes de textos, gestos, risos, choros, palavras e músicas, vozes femininas, pedaços de mim e de outros cortados e colados com girassóis, rosas e espinhos num painel cujo enterro segue e a ser velado por minha sinfonia lacrimal a luz de velas e uma seleta coroa de flores bárbaras: Begônia, Margarida, Tulipa, Camélia, Rosa, flor de Lis, Crisântemos e Antúrio, Hortência.                    

Foi tanto que nem sei quão tempo empregado e impregnados de afeto, dedicação, superação e coragem há de se destacar. Não sei quanto passado e planos, quantas verdades e lembranças inventadas há nisso então. Quanta ficção, quanta cena, quanto suor, quanta troca, quanta alma, quanto corpo e torpor, quanta dor, uma cadeira de cada flor, cor, palavras de cór, Almodovar, Tim Walker, quanta substância de amor se faz desritmar sem rima alguma, sem conversa, verso, nem prosa.          

As rosas viraram sangue escorrendo dum balde de criação. Mais que resto, que renda.     

Um ano e pouco se foi desde o início e agora, no fim, nem sei com o quanto de humano se pode contar quando o encontro no  horizonte está em cheque.                 

Um ano. Um tiro. Uma morte. Roleta Russa.    
E agora ao meu luto, se me permite, retorno. Após entornar algumas doses de lágrimas e cappuccino sabor alpino da Nescafé, enxugo as lágrimas e me levanto. Prumo novo rumo. Já disse em algum lugar - perdi n’algum canto a vocação pra ser triste e ganhei o poder cristal dos chistes. Algo com aquele lance de escorpiana que lança mão da fossa, sai do poço  pro posso,  renasce das cinzas e alça vôo feito águia imensa no céu. É que (acho), sigo com fé em Deus, na vida,  e boto pé na estrada e amor na avenida. A espiritualidade me aconchega e me diz na voz  de Bethânea: "eu não ando só". E embora eu não goste da dor que sinto nas mortes, acredito na reencarnação. Estou sóbria e de pé, vivendo com arte e axé. Não dou ré, religião mas mais ainda ela, a fé. Talvez eu só não goste de mortes por dor, mas mortes com amor...Essas talvez eu ainda hei de inventar de escrever entornando sorrisos em novos papéis. 
Hoje choveu em mim, mas li por aí que amanhã serão 21 e a primavera chega aqui.  
Sim. Novas flores virão. 








quarta-feira, 11 de setembro de 2013

MENINO MAREJADO DOS MEUS OLHOS


Na minha saudade mora um menino alado,
de cabelo dourado e fronte de sábio, meu conto de fada. 

Na minha saudade mora um menino astrolábio,
que me pousa em sonhos o sorriso secreto com aquele mel só seu de sarcasmo. 

Na minha saudade mora um menino calado,
que tudo transvê com seus olhos oceano profundo de antepassado.

Na minha saudade mora um menino encantado,
de alma pura e eu volta meia procuro por todo lado, e d'outro.

Na minha saudade mora um menino epitáfio,
que me enfeita a lembrança com a sabedoria milenar do abraço.

Na minha saudade mora um menino invisível,
que no ouvido me sopra palavras, surfa em carícias, coisas afáveis de alma amada.

"A gente sempre briga, mas a gente sempre faz as pazes" - e riu.
...último reveillon do resto de nossas vidas...





terça-feira, 10 de setembro de 2013

Alquimia


Pegue suas águas amargas 

Junte às mágoas passadas 
Salpique com qualquer breu ou coisa calada 
Jogue tudo na privada. 
Aperte a descarga. 

No recipiente esvaziado 
Coloque águas de Ás 
Encha até a boca 
de amor abraço arte alegria 
Deixe solarizar na luz alta da manhã
Alimente-se dia após dia 
ao menos uma dose dessa alquimia

Luz, vida, ação! 

Agradeça sempre que sonhar, 

Aprendiz

FAXINA

Esfrega o peito,  tira  o engodo
passa o rodo lava a alma
veja
tudo passa

panos quentes não resolvem nada.

A mar é.

Terá sido meu mal dito mau humor que amaldiçoou o homem que eu chamo de amor?
Tacou-me pedra a troco de palavra
e não por mim,
sim por ciúme ou desafeto
Sim, por um moço descrente e não tão discreto
Foi cíume a maldição!
Tacou-me feia na face uma resposta à la Chico
no bucho do analfabeto, letras de macarrão fazem poema concreto!”
Perguntei-lhe  então:
Sua resposta à bolonhesa vem e vira a mesa do meu amor?
Desgosta do meu perdão pedido?
Mudo o menu?
Emudeço?
Esforços eu não meço!
Peço uma prece?
Só não fujo nem me despeço.
Me dispo de qualquer coisa, até rima, o que for, me diz?
Me dá um giz que risco tudo,
boto um nariz, faço graça,
viro tudo até palhaça na sua mão.
Fico non sense, vivo paixão, viro circense,
desafio, domo o ego e o leão.
Mas não...
Carece nada disso não...
Que no teu aquário sereno, sereio, sou peixe, pedra, pérola,
nado e tudo
no relicário bravo desse amor.

Boa tarde, amor!



Me desculpe o maldito mau humor!!!



É que a manhã faz manha dentro de mim.


e eu fico espinho mais que rosa

ou que dourado alecrim.



Mas o dia vem, faço poesia,

lembro do meu bem,

peço talvez até tardia desculpa, 


faço carícia no meu erro também.


Dôo uma dose de mimo e a expedição desse emitido:


Continua navegando no horizonte do meu hojecer?

Bom dia, Rio!

Abre a janela! Olha lá!
Que dia lindo hoje lá fora está.
Que Rio é esse? 
Não...
Não poderia deixar de comentar! 

É assim que Deus, a vida, a glória,
até o boa praça,
o ar da sua graça dá.
Assim eu aceno, eu danço, ensino, enceno,

assim eu brinco, eu brilho, irradio brio!assim eu Rio dentro de mim.
Ai... Que Rio!
Ai... O ar que o dia a sua graça dá!

sábado, 7 de setembro de 2013

DEPOIMENTO - A Resposta à paixão que me cabe.



  

Olá, senhor. Venho aqui depor, relatar meu torpor, me expor? Não sei bem o que é isso, doutor. Se é resposta ou se aposta no que mostra o menino poeta sobre a parte que me toca (ou a paixão que me cabe). Não sei se é depoimento o que invento nesse intento. Um inventário? Inventário de amor ou mostruário esmiuçado da paixão? Acusaram-me já de ter roubado um coração. Serei então pré-presidiária? Não foi bem assim doutor. Pode revistar, abrir meu armário. Abre o armário, doutor! Cuidado, pode cair um pouco (um monte) de sonhos. Ui! Caiu ciúme, tormento primário! Desculpe doutor, foi pesadelo mal guardado. E é pesado, eu sei... 
Mas olhe bem. Não sou advogado, nem diabo, nem ladra, eu te juro, doutor! Sou por direito namorada. Não foi coisa roubada, já te disse, não foi bem assim. Não deponho contra mim. Eu conto sem aumentar ponto, que isso tudo foi só encontro sim. Começou banal também sim. Oi? Foi. Foi com um oi, sim. Depois? Ah, doutor... Depois foi palavra depois de palavra, desenhada feito coração no vapor, palavra após palavra, um pouco pueril parece, mas não à dois sós que de lirismo vivem, feito prece, e assim enobrecem toda qualquer coisa que aparece. Palavra após palavra após palavra após palavra após palavra aposta que de repente acontece... dois sapos sonhando principado, casório prenunciado, verso pronunciando promessa após palavra após palavra após foi tudo! Tudo poesia à primeira vista. Olhe bem pra este cenário. Amor a vista, doutor. Ou paixão, seja lá como for. Eu quero chamar de amor. Amor à vista. Não tem crediário, nem furto, flerte sim, mas se algum meliante há, é o inventor desse rumor que roda por aí ao léu me colocando como réu diante do roubo que se existiu foi mútuo e de comum acordo e nos pôs no céu. Eu aqui, que me rôo as unhas, me mordo, me encolho e escolho a todo minuto deixá-lo levar consigo meu coração mesmo que eu fique sem abrigo! Dele eu ardo em saudade mesmo agora que ele ao meu lado repousa seu pulso no meu à cafuné, café e vontade. Foi roubo mútuo doutor! Que prenda então os dois e nos coloque na mesma cela. Não precisa nem janela se assim for. Desse modo eu aceito pena faço confissão peço perpétua. Perpetuação de amar os sonhos que vejo velejarem pelos encantos dos olhos calmos e alma (até parece) tranquila do meu menino. Não paguem fiança, por favor! Tenho fé e confiança na justiça desse amor. Deixe-nos então ali dia após dia vendo que quadrado o sol também pode ser e que estrela temos num quadro. Ele me fará ver o quadro mesmo quando eu quiser ver só um buraco, um abismo, uma cisma, um enfado. Se janela não houver, nem hei de perceber, ele já terá arrumado um giz e o tal quadro desenhado. Ele vai me fazer carícia no ego cada vez que me nego a ser simples e sã. Vai me soprar lembrança: "Venta, coisa linda, que és filha de Iansã!". Vai me me cantar uma delicadeza, uma delícia, vai me fazer viver um era uma vez sempre que minha tez anunciar um revés, sempre quando não houver pão nem violão. Se só restar farelo, vai olhar com esmero e brincar de poema, desenhar uma letra ou caçar uma canção. Cansar nunca, não. Descansar sim. Se nos derem um pano qualquer, um trapo, ou todo dia, que seja, um guardanapo, de nó em nó eu faço um trato de montar uma rede pra ele ficar lá parado olhando nosso quadro. Eu juro que balanço a rede enquanto ele cantarola uma música atrás da outra sem parar. Ele jura pra sempre rimar e remar sobre mim. Ah, e naquela rede a gente mata a sede de pintar a menina Lori pra depois guardanapo virar berço. “Lori vai ter olhos lindos”- ele diz e eu não esqueço. Ele levanta , Lori dorme, enquanto eu balanço e ele cantarola. E ela, já maior, deita e rola em poeisa a três. 
Abre de novo o armário, doutor! Eu sei que tá bagunçado, mas vai ver que ali bem no fundo, junto de tanto sonho embolado, também tem bercário. Tem sim, doutor. Dali onde eu vejo buraco, veremos vênus. Eu e meu homem-menino, filho da constelação de aquárius. Dali nossos corações roubados, réus vitimados, estarão pra sempre guardados, entre um e outro parto, num pacto de quatro paredes. Doutor! Dê-nos uma caneta apenas, por favor, e escreveremos nas paredes nossos amor a quatro mãos: 

“COMEÇO" - A PEÇA
ELA (cheia de si por fora, boba por dentro, toda toda se derretendo) - Ele se move lento mais que atento pra não embaralhar todas a peças de si  que montou com carinho enquanto andarilho, pra não embaralhar todas as peças  de si que montou com jeito lúdico enquanto menino, todas a peças de si que montou com liberdade enquanto desbravador da terra do nunca, sempre acreditando, mais que nunca, mais que ninguém, que tudo é mais que pé na terra e que nada é mais que tudo que de real possam inventar que seja. Por isso, pra ele, numa cerveja ou dez nada há de mal. Que brilho a mais pode se negar a quem quer apenas dançar com as estrelas sob a luz que o sol a lua dá? Ele me diz (cheio de sarcasmo) que eu baguncei o quebra-cabeça porque falo que ele o montou errado. O mais lindo, é que mesmo me achando um anjo malvado por ter tudo desmontado, ele diz: “Me carrega pro teu lado e me ajuda a montar de(novo)?” Eu o chamo sabiá, ele me chama ora passarinha, ora borboleta. Tem hora que a gente se chama anjo, então de quando em quando é um arranjo. O caso é que tudo tem asa e nesse tanto de acasou roubado, eu só peço uma condição: pra gente manter os pés no chão. E ele me diz: "tudo bem, mas deixa a mente voar?". E eu deixo tudo, abro mão e abraço a idéia de fazer o coração sonhar e tudo nessa cela soar caixa de música. 

ELE (sorrindo com os olhos) – Ela é de escorpião mas anda lendo horóscopo de aquário. Tem visto coelho até na lua nova. Está complemente apaixonada...”

De: ora passarinha, ora borboleta
Para: sabiá

DOIS CORAÇÕES ROUBADOS NUMA SÓ CELA