Arte, porque a vida por si só não deu conta dela mesma





domingo, 19 de dezembro de 2010

SAMUEL BECKETT

SAMUEL BECKETT APRESENTA:

O ABSURDO HUMANO






"O que nos salva da solidão
é a solidão de cada um dos outros. Às vezes, quando duas pessoas estão juntas, apesar de falarem, o que elas comunicam silenciosamente uma à outra é o sentimento de solidão."
                                                                                                                                                          Clarice Lispector


- Sobre o autor e sua época:

Irlandês, Samuel Beckett nasceu no início do século XX. Precisamente no dia 13 de abril de 1906. Embora tenha nascido numa família protestante, não desenvolveu qualquer apreço pela religião.

Enxergava a sua volta uma sociedade reprimida e teocrática. Assim, decidiu sair de sua terra natal e fixar residência em Paris, onde passou a viver de tradução e escreveu seus primeiros poemas em francês, publicados apenas após a Segunda Guerra Mundial. A partir do romance “Murphy”, já se pode perceber a inquietação, insatisfação e tédio que vão permear a obra do autor.

Contestando Beckett as convenções sociais, sua escrita vai se caracterizar pelo desmembramento interior do homem. Pelo descontentamento e o vazio que assolam a alma humana.

Em 1939, quando é declarada a Guerra, Beckett retorna à França e afirma: “Prefiro a França em guerra à Irlanda em paz.” Para escapar da prisão, refugia-se com Suzanne, sua esposa, na zona livre, onde trabalha na lavoura. É quando escreve “Watt”, um romance que narra o universo interior recheado de profunda angústia. Neste romance, as referências ao mundo externo se tornam mais escassas.

Em 1945, ao fim da Guerra, Beckett retorna à Paris, quando inicia um denso período de sua vida artística.

Preenchido pelo vazio, Beckett criará uma de suas mais significativas obras literárias: “Malone Meurt”. Em seu quarto, à beira da morte, Malone delega aos saudáveis a seguinte pena: definhar, preso a um leito. E voltando-se para si mesmo, o personagem sofre com a pena desejada a outrem e, sem palavras, percebe não ter mais forças para levantar.

À procura de algo que preenchesse o vazio do universo, Beckett refletiu a vida toda sobre a questão, sintetizando-a numa passagem de “Malone Meurt”: “E sem saber exatamente qual era a sua falta, ele sentiu bem que viver não era uma pena suficiente ou que essa pena era em si mesma uma falta, exigindo outras penas e assim por diante, como se pudesse haver outra coisa além da vida para os vivos”. Como se vê, esse trecho traduz claramente o desgosto e o descontentamento de Beckett.

É nas suas personagens que ele demontra suas inquietações, colocando-as como vítimas de uma maldição, atiradas em um mundo sem felicidade, numa busca constante de uma identidade e uma linguagem.

Também trabalhou nos romances: “Mercier et Camier”, “Premier Amour” (inacabados), “L’ Expulsé”, “La Fin”, “Le Calmant”.
 
- Sobre a peça: “Esperando Godot”





















O lugar é deserto e sem cor. E com o diálogo, Vladimir e Estragon tentam preencher o tempo da espera de Godot. Um personagem desconhecido que nunca chega. Talvez, Godot não passe de um pretexto para esse questionamento permanente de Beckett sobre o que alimenta ou o que move a vida do ser humano. Talvez, esse homem que nunca vem, seja a resposta que o irlandês jamais encontrou sobre a vida. E a espera por esse algo que nunca se encontra desencadeia este tédio e abre o caminho do vazio.


Acredita-se também na possibilidade de que Beckett tenha usado Godot como uma referência a God. Já que seu personagem, assim como Deus, é absolutamente desconhecido. E assim como é constante e eterna a espera de Vladimir e Estragon por Godot, o homem aguarda o encontro com o divino.

Pozzo e Lucky, dois personagens com uma relação grotesca de autoridade e submissão, respectivamente, entram. E iniciam um diálogo com Vladimir e Estragon, ajudando os dois não apenas a preencherem a horas , mas a sentirem-se menos sós e esquecidos. É exatamente nos momentos em que as conversas entre Didi e Gogo (como os dois personagens principais se chamam carinhosamente) se tornam mais vazias e monótonas, que Lucky e Pozzo aparecem. O primeiro sendo conduzido pelo segundo por uma corda amarrada no pescoço.
                                                                                                                                                                       
Questões existenciais aparecem ao longo da peça. A necessidade da companhia, a aversão a solidão e a existência dela dentro de cada um, mesmo que estejamos de mãos atadas a outrem.

As eternas dúvidas, questionamentos e insatisfações de Beckett vão construir a atmosfera da peça: “...neste tempo, neste lugar, toda a humanidade se resume em nós dois, quer isso nos agrade ou não. Aproveitemos isso, antes que seja tarde. Representemos dignamente, uma vez que seja, a raça à qual um destino injusto nos consignou.”

A solidão e a necessidade do outro são questões absolutamente relevantes na natureza deste texto e aparece concretizada no momento da segunda entrada de Pozzo e Lucky. Pozzo está cego e Lucky mudo. Desta forma, as duas deficiências vão torná-los, inclusive, fisicamente dependentes. E, certamente, Pozzo não mais terá o mesmo controle sobre seu criado, já que não pode mais conduzí-lo, vê-lo e tampouco escutá-lo.


- Sobre "Fim de Partida"  



 Em “Fim de Partida” ou “Fim de Jogo”, dependendo da tradução escolhida, Hamm e Clov estão numa sala vazia com apenas duas janelas localizadas bem no alto. O primeiro é paralítico e está sob uma cadeira de rodas, enquanto o segundo, em oposição, tem as costas rígidas e jamais consegue sentar-se. Mais uma vez estão expostos dois indivíduos em situações de limite físico. E a contradição, evidenciada, expõe as condições que determinam as interrelações marcadas por jogos de poder. Nesta obra, existem ainda dois personagens: Nagg e Nell, que surgem de dentro de dois latões para pedir comida e se comunicarem. Emergem de suas solidões para rememorem sempre os tempos em que era possível ser feliz.


                                                       
                         
- Sobre o estilo literário e composição dramática:

Assim como Beckett, Ionesco também trabalha em torno do teatro do absurdo e suas obras têm uma natureza reflexiva, crítica e filosófica do universo humano. No entanto, elas se caraterizam por uma expressão exagerada e caricatural do comportamento do homem.

Diferentemente de Ionesco, Beckett produz obras que lembram as do teatro naturalista: os personagens são envolvidos por um realismo banal, fazendo com que o espectador fique mobilizado e sinta-se angustiado diante da solidão e o absurdo da existência humana. Assim, Beckett trabalha na atmosfera do Teatro do Absurdo. Sua obra discute a condição humana em sua atemporalidade. Uma condição que não se prende ao tempo, mas que é permanente e inerente ao homem. O teatro de Beckett não faz alusões ao contexto político-social, já que, tem como enfoque, questões existenciais. Não traduz a relação do homem com o mundo externo, mas dele com ele mesmo.

Situado após a Segunda Guerra Mundial, o Teatro do absurdo se caracteriza pela destruição de valores e crenças, produzindo um teatro anti-realista, ilógico, que encara a linguagem como obstáculo entre os homens, condenados à solidão.





- Sobre a Incomunicabilidade em Beckett

"As teorias do absurdo se desenvolveram ao mesmo tempo que cada um descobria a incomunicabilidade dos seres. Cada indivíduo gritava sua solidão diante de uma sociedade impotente e um céu em trevas (...) Sem dúvida, nunca antes, no curso da história, o teatro cumpriu com mais evidência a sua missão de revelador da angústia do homem."

                                                                                               Pierre-Aimé Touchard

A comunicação humana está sensívelmente presente como questão do Teatro do Absurdo, termo utilizado por Martin Esslin sob inspiração do dadaísmo e o surrealismo, para definir a dramaturgia com caráter ilógico de alguns autores teatrais deste tempo. Tempo de pós-guerra e desesperança. Após a Segunda Guerra Mundial, a destruição e a devastação se extendiam do ambiente físico para o ambiente humano. A paisagem invisível de todos e de cada um estava destroçada. Os valores e as crenças foram quebrados... Como acreditar no Belo, na harmonia, nas possibilidades? Como comungar da existência, coletiva principalmente, diante daquele cenário? Era todo esse mal-estar social, esse espírito desacreditado, as perguntas sobre o humano e a inconviência que encharcavam as expressões teatrais dessa época. O absurdo da co-existência - a solitude, o desencontro, a incomunicabilidade.

Em Beckett, podemos perceber claramente a apresentação disso na formlação de seus diálogos que contrapõem as subjetividades que ali residem:

(ESTRAGON volta para seu calçado.) - O que fazes?

ESTRAGON. - Descalço-me. Não o fizestes nunca ?

VLADIMIR. - Faz tempo que te digo que é necessário descalçar-se todos os dias. Mais virias escutar-me.

ESTRAGON.-(Fracamente.) - Ajude-me!
VLADIMIR. - Te encontras mal?
ESTRAGON. - Mal! Perguntas-me se me encontro mau!
VLADIMIR.(Acalorado.) - Tu és o único que sofres! Eu não me importo. Entretanto, eu gostaria de ver-te em meu lugar. Já me dirias isso.
ESTRAGON. - Estiveste mal?
VLADIMIR. - Mal! Perguntas-me se estive mal!
ESTRAGON.-(Assinalando com o indicador) - Isso não é uma razão para que não te abotoes.
VLADIMIR.-(Inclinando-se.) - É verdade. (abotoando-se) Não terá que se descuidar nos pequenos detalhes.
ESTRAGON. - O que quer que te digas? Sempre esperas a última hora.
VLADIMIR. (Sonhadoramente) - A última hora... (Medita.) Demorará; porém valerá a pena. Quem dizia isto?
ESTRAGON. - Não queres me ajudar?
VLADIMIR. - Às vezes, digo-me que, apesar de tudo, chegará. Então, tudo me parece estranho. (Tira o chapéu, olha dentro, passa a mão pelo interior, agita-o e volta a colocá-lo) Como o diria? Aliviado e, ao mesmo tempo..., (Busca.) espantado. (Com ênfase.) Espantado! (tira outra vez o chapéu e volta a olhar o interior.) Era só que faltava! (Golpeia em cima como que caisse algo, olha novamente ao interior e volta colocá-lo) Assim que...
ESTRAGON. - O que? (A custo de seu esforço consegue tirar o sapato. Olha dentro, coloca a mão, tira-a, sacode o sapato, olha pelo chão se por acaso caiu algo; não encontra nada, volta a passar a mão sapato, olhando vagamente.) Nada.
VLADIMIR. - Deixe-me ver.
ESTRAGON. - Não há nada que ver.
VLADIMIR. - Trata de lhe pôr isso.

Beckett deixa exposta a falha comunicacional que deixou de ser uma troca. Seus diálogos se desenrolam por uma série de banalidades ditas uma atrás da outra na tentativa de preencher um vazio imenso. Acaba por evidenciar a solidão humana que, entretanto, ou justamente por este motivo provoca o não isolamento: “estou com o outro, embora não para o outro”. Cada um consigo próprio, ainda que necessite da presença física de outrem.

Um exemplo muito claro desta necessidade de estar em companhia, ainda que a comunicação não encontre meios para se estabelecer é a chegada de Pozzo e Lucky , cego e mudo, respectivamente, no segundo ato. O segundo é o tempo todo arrastado pelo primeiro, que vive falando sobre a necessidade de livrar-se do companheiro, o que jamais acontece ou acontecerá. Ainda que comunique todo o tempo através de um autoritarismo exacerbado, e que o outro responda sempre de forma diminuta, um necessita do outro. Se entendem através da relação de interdependência. É através do não-dito, portando, que a comunicação entre os dois se estabelece. Ainda que ruidosa, ainda que as subjetividades sejam de fato inacessíveis. Elas se encontram em outra esfera. A comunicação na incomunicabilidade. Silêncios largos... Aí reside a relação beckettiana.

Isto pode ser percebido também quando olhamos para a tecitura dramática da obra de Samuel Beckett. Ou diria, talvez, não-dramática, se pensarmos sob o ponto de vista aristotélico. A subversão do drama se configura justamente e sobretudo através da inação. Além do fato da estrutura não seguir os padrões aristotélicos, há aqui uma questão relativa a conceito. Se drama se define por ação e a cena de Beckett se apresenta num contexto de inação, já temos aqui o que poderia ser um paradoxo num entendimento dramatúrgico. No entanto, é aí que se evidencia o caráter principal de sua obra dramática. Sem ação ou acontecimentos que convirjam para algum lugar, é nos diálogos que se dá o leit motiv. Em Beckett, o diálogo, em sua totalidade (com suas pausas, ritmo, repetições e contradições), é ação. Um foco substancial na palavra, no seu poder e impotência. E então, a linguagem verbal, o meio mais imediato de comunicação humana, se revela tão fracassada. Daí então, só o que resta, é esperar.


por Alessandra Gelio





































domingo, 12 de dezembro de 2010

UM ESPAÇO CÊNICO QUE NÃO É MAIS UMA COISA SÓ

“E agora nada é mais uma coisa só” foi um espetáculo realizado em 2005 na Caixa Cultural pela Comapanhia de Teatro Autônomo.

Dirigida por Jefferson Miranda, a peça é a continuidade de uma pesquisa de cena já presente no trabalho anterior, o bem sucedido “deve haver algum sentido em mim que basta”.

A companhia parte do princípio de que não existem preceitos em direção a uma linguagem particular na sua investigação cênica. Apenas uma balisa: o que nunca foi realizado em teatro? Definem seu teatro como um teatro de fronteiras. Onde elas estão? Como romper com elas?

Num tempo em que integramos uma sociedade líquida, como define Zygmunt Bauman, esta sociedade pouco consolidada, fluida como água, tão mutável, neste corpo social onde as variações acontecem a todo instante, nada se fixa e tudo se transforma num agora após o outro. Neste contexto, as possibilidades se alargaram na infinitude e não param de emergir. E para Jefferson Miranda e sua companhia, é tempo de fazer estas possibilidades emergirem aos palcos. Se o intuito é retratar a exata situação da interrelação humana, se existe algo de sociológico nesta proposta, não sei. Creio que não. No entanto, acaba por refletir bem contemporâneamente, de forma simples e sofisticada ao mesmo tempo, o nosso meio.

“E agora nada é mais uma coisa só” não apenas retrata, mas carrega no título esse caráter fragmentado do mundo e, claro, do indivíduo do século XXI.

Não. De fato, nada é mais uma coisa só. As coisas acontecem simultâneas, não estanques e nem segmentadas. É assim, justamente como nosso corpo social se configura, que se dá a cena do espetáculo de Jefferons Miranda. Situações cotidianas diversas ocuparam uma sala no segundo andar da Caixa Cultural. Nesta sala, uma instalação: a cenografia reproduzia espaços internos, lembrando apartamentos. Pilastras, mesas, sofás, pufs, cadeiras, recortavam os espaço. E reafirmando esta fragmentação, recortes de instantes vividos entre duas duplas de atores, por vezes aconteciam simultâneamente, evidenciando deslocamentos no espaço-tempo e determinando ainda mais a não linearidade dramática. Linearidade, aliás, é palavra que não cabia naquele espaço. Circunstâncias diversas, possibilidades várias de interrelação humana, se manifestavam demonstrando, em um canto ou outro do espaço, seu caráter múltiplo. E o mais interessante de tudo isto é a condição em que se põe obrigatoriamente o espectador. Obrigatoriamente livre para escolher. Com esta simultaneidade toda, ele é colocado em posição autônoma, isto é, ele pode selecionar o que vai assistir. E aí reside a grande particularidade deste espaço cênico: o espectador está totalmente inserido nele. Nada separa a área de atuação da platéia. Aliás, o espectador pode e deve transitar naquele espaço, percorrendo a cena que quer ver. E se mudar de idéia, não há problema. Bem possivelmente haverá uma outra cena acontecendo logo ali.

Esta enecenação, caracterizada pela apresentação de situações corriqueiras vividas sobretudo entre casais numa relação de hiper proximidade com o público, traz outro traço marcado já em “deve haver algum sentido em mim que basta”: a interpretaçao transparente chamada por alguns de hiper realismo. Contudo, essa vivência cênica proposta por Miranda, se dá entre o despojado e o poético. É que o espactador está ali, inserido naquela espécie de apartamento como se tivesse sido convidado a invadir a intimidade de alguém. Não há espaço para uma teatralidade exposta. Nem para personagens construídos ou gestos expressivos. Ali temos pessoas que foram flagradas no seu universo particular. É isto que o espaço determina. E por isso também elas agem desta maneira.

Todavia, não podemos esquecer, estamos num evento cênico, como prefere chamar o diretor do trabalho. E qual a diferença de entrar de fato na intimidade do lar de outrem ou assistir uma cena que simula tal acontecimento? Aí está a sofisticação do espetáculo. Ornamentando, ou melhor dizendo, compondo a engrenagem desta cena, o cenário, apesar de trazer diversos elementos que caracterizam um apartamento, não é disposto de forma naturalista nem cotidiana. Num canto temos muitas e muitas cadeiras empilhadas desordenadamente, enquanto num espaço central uma mesa está toda ocupada por uma bela quantidade de objetos domésticos organizados com uma preocupação estética. Três ou quatro ventiladores antigos, por exemplo, fazem parte desta composição.

Na Cia do Teatro Autônomo, a tecitura do espetáculo está sempre passando pela autoralidade diretor artístico. Não obstante, esta característica poética costuma se apresentar no trabalho da companhia. É que Jefferson atua também no campo das artes plásticas, bem como, já trabalhou com figuinos. Em geral, inclusive, é ele quem cria os figurinos dos espetáculos que dirige. Neste trabalho, Jefferson assina roteiro e direção, além de cenografia e figurinos ao lado de Flavio Graff.

Em “e agora nada é mais uma coisa só” os figurinos são em sua maioria sóbrios e densos, tons terra: marrom, vinho, verde musgo, beje e cinza. A não ser na cena realizada pela jovem atriz Julia Lund, cujo figurino é composto por um tchutchu preto de bailarina e o cabelo com um penteado “maria chiquinha”, que dialoga perfeitamente com a jovialidade, uma espontaneidade quase infantil, característica da cena.

A iluminação é simples e refinada. Acompanha a proposta de cotidiano e e na maior parte das vezes é uma luz ambiente quente, variando entre tons sépia e ambar.

O espetáculo realizado pela Cia de teatro Autônomo em dezembro de 2005 na Caixa Cultural é uma série de recortes, um olhar poético para o múltiplo das interrelações num cenário determinado pelo paralelismo, simultâneo e fragmentado todo contenporâneo. Porque afinal, agora nada é mais uma coisa só.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Algo de novo.

ouvimos música, tomamos vinho,
conversamos sobre
arte, politica,
trabalho, amizade,
nos alimentamos de nossas alegrias e angústias,
as vezes mútuas,
nos misturamos feroz e delicadamente ao mesmo tempo
e sonhamos depois...

E antes de acordar, eu já sei como será
Três pães na chapa, dois sucos de laranja e dois cafés.

"Ah, moço, pode passar a manteiga antes e depois? Da chapa..."

domingo, 31 de outubro de 2010

"Da Carta ao Pai - ou tudo aquilo que eu queria te dizer"



Que particularidades podem tecer essa que é uma das primeiras e das mais delicadas relações humanas?
Que pormenores existem no encontro entre um pai e um filho?

Enquanto escreve uma carta, um autor olha para sua relação com seu pai, Herman. Através da sua perspectiva, da sua criação, dos seus personagens, ele revê, revive, reconstitui e recria a sua história ou uma outra também possível.





QUARTAS E QUINTAS
DE 27 A 16 DEZEMBRO
AS 21 HORAS
SOLAR DE BOTAFOGO







quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Em breve, muito breve... ENTREGOLES


Idealização:
Conrado Sester

Direção e Orientação dramatúrgica:
Alessandra Gelio

Textos:
Alessandra Gelio, Bella Rodrigues, Conrado Sester, Mario Terra, Natalia Lebeis, Rafaella Ranauro.

Elenco:
Alessandra Gelio
Ana Luiza Cunha
Bella Rodrigues
Chico Monjellos
Conrado Sester
Tiago Ribeiro

Figurino:
Tiago Ribeiro

Iluminação:
Chico Monjellos

Operação de Luz:
Vanessa Greef

Operação de som:
Alexandre Paz

Fotografia:
Alessandra Gelio

Programação Visual:
Diego Estteve

Produção:
o coletivo





terça-feira, 28 de setembro de 2010

Delicadeza Perdida

Sabe quando você esquece como é um gostoso ver o sorriso de alguém? Uma gargalhada gorda, um olhar tímido de soslaio, um silêncio abraçado, um "Bom dia" solar sob um céu nublado, um obrigada vasto, o vôo coletivo das gaivotas como epifania, uma dança breve de uma folha no vento, um sorriso, uma lágrima escoando doce... quando se esquece a delicadeza de uma bolha de sabão... é o cerne da beleza que foi perdida...

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Texto para "Coleção Carrossel - Verão na Pepper!"

Este texto está disponível no link COLEÇÃO no site: http://www.pepper-rio.com.br/

Coleção Carrossel  Verão 2010/2011 na Pepper


Quem foi que disse que não dá pra voltar a infância?


A Coleção Carrossel vem com tudo para encher a primavera e o verão com as cores,
as imagens e lembrar os sabores da velha infância.

Pensando na mulher carioca, com jeito de moleca e que experimenta um ambiente livre e
um dia-a-dia despojado - principalmente no verão - a Pepper criou a Coleção Carrossel. Todo mundo reserva em si um pouco da criança que foi. Por isso, escolhemos o parque de diversões
como ícone de inspiração.


Para resgatar essa menina que há em toda mulher, despertar de novo aquela sensação de que tudo é possível, da magia em tudo o que há... usamos e abusamos de divertidos silks - que são grande tendência do momento nas t-shirts - desenhamos sorvetes, rodas gigantes, carrossel, cartola de mágico e muito mais.


Isso, é claro, além das rendas que vem como mais um elemento lúdico. Elas aparecem como um delicado detalhe e acabamento em diversas peças - coletes, vestidos e saias - trazendo o ar romântico que toda menina da mulher moderna também tem. Sem falar nos babados. Muitos...

As cores variam, se somam, se contrapõem e se combinam. Para o frescor do verão,
as cores leves em tons pastéis do rosa nude, amarelo, verdepistache e lilás podem se misturar com os divertidos tons azul turqueza, melancia, roxo e prata.


Vestir a alegria é o que a Peper propõe para esse verão. O ar lúdico da infância em você, colorindo nosso dia-a-dia.


Quer desfilar por aí a aurora da sua vida? Por aqui tem!


Por Alessandra Gelio para Pepper.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

QUER VER SUA HISTÓRIA EM CENA?



O espetáculo "Da Carta ao pai - ou tudo aquilo que eu queria te dizer" parte da "Carta ao Pai" de Franz Kafka e mistura vida e arte. Mesclando a história do autor tcheco a outras histórias vividas entre pais e filhos, cena e dramaturgia são construídas. Quem quiser transformar situações da... sua vida em obra teatral, pode relatar sua história e enviá-la para: producao.dacarta@gmail.com
 
Sob orientação dramatúrgica e direção de Alessandra gelio e com atuação de Jean Machado e Igor Angelkorte, a peça estréia no dia 27 de outubro no Espaço Solar de Botafogo.
Compartilhe sua história!
 

terça-feira, 24 de agosto de 2010

“O INIMIGO MORA AO LADO”

Notas sobre uma guerra urbana



Parece filme, mas não é. Se fosse seria... ação? Terror? Não importa. Não é filme. Aliás, é realidade. Nua e crua. E bota crua nisso. Na manhã do último sábado, dia 21 de agosto, o bairro de São Conrado acordou em pânico. O som de disparos em todos os timbres, dos agudos aos mais graves estouros levou os moradores a se protegerem nos cômodos mais distantes das janelas e na rua a agitação e o desespero corriam de um lado a outro. Transeuntes abaixavam-se, passageiros saltaram de ônibus, supermercados fecharam as portas. Berros e tiros. Era o que se podia ouvir.


Alguns instantes depois, dentro de casa, telefones tocando. Intercomunicação dos moradores num movimento de preocupação generalizada. Lá fora, os trabalhadores da COMLURB largavam o caminhão batido pelo susto, e corriam para dentro de um condomínio. Da minha janela mesmo, eu podia ver... os policiais acuados atrás de um poste, um senhor agachado e uma moça chorando.


Minutos depois, no mesmo local (atrás da agência de carros Itavema) muda a cena... “Entra, entra, deixa! Entra, corre! O cara do carregamento tá vindo” – eram pessoas entrando apressadas num gol cinza chumbo. Bandidos ou cidadãos amendrontados?


Sons de helicópteros. A polícia aérea chegou! Agora viriam tiros de cima também? Em terra, eram setenta bandidos. Nem dez, nem vinte. Setenta. Setenta traficantes armados até os dentes, como no dito popular. Pistola, Fuzil, AR-15, granada! Gra-na-da! Alguém consegue imaginar isso num bairro de classe média alta, na rua atrás da sua casa? – O inaceitável, o inimaginável, chegou aqui. E agora eu sei o que a "L.", moça que trabalha aqui em casa, passa lá em cima, no morro. Lá não, ali. A Rocinha é minha vizinha bem próxima. – Pensei cá comigo. Minha empregada mora na favela da Rocinha, vê bandido todo dia. Aliás, vive topando com o poderoso chefão no caminho pra igreja. O negócio é que essa loucura não tinha que ser cotidiana nem aqui nem lá, nem ali, nem acolá, em direção nenhuma, em lugar algum. A Rocinha é do lado da minha casa e eu nunca me senti com uma arma apontada pra cabeça. Nem perto disso. Da janela do meu quarto, tenho visão periférica da favela. Cresci vendo aquela favela crescer. No ensino médio, meu ônibus ia ali por dentro. Meus porteiros moram ali, os funcionários do supermercado e do restaurante que eu freqüento aos domingos moram ali. O Nem, os setenta bandidos e muitos outros traficantes mais moram ali? “É... com a UPP nas outras favelas tem bandido de tudo quanto é canto aqui na Rocinha. Ficaram sem emprego, foram chamados pra trabalhar aqui” – do meu lado... A "L". me contou.


Passados os tiros ensurdecedores, a televisão ligada noticiava a invasão dos traficantes no conceituado Hotel Inter Continental, onde funcionários e hóspedes eram feitos reféns. As imagens mostravam pessoas saindo correndo, algumas de mala e cuia! (Como alguém arranja tempo ainda pra pegar a mala?) O BOPE e a polícia militar cercaram o prédio. E adentraram. “O que está acontecendo?” Ok, o jornal já havia anunciado – Traficantes saíram de um baile no Vidigal e estavam voltando para a favela da Rocinha. Estavam em vans e motos. No caminho encontraram com a polícia e começaram a troca de tiros. – mas era inacreditável.


São Conrado é um bairro pequeno. Todo mundo se conhece e às vezes parece até uma vila. Os moradores trocavam telefonemas, fosse pra saber de notícias, fosse pra dividir o espanto, o medo, o terror. Numa dessas que me ligou uma amiga, contando que na portaria do seu prédio, policiais entraram para se esquivar dos tiros. E por isso, vidraças do seu play e de um apartamento do segundo andar foram atingidas e estouradas pelas balas. Cápsulas de bala de fuzil no playground. Não me parece brincadeira de criança. Não?


Meu filho havia dormido com um coleguinha na casa da avó, moradora do Condomímio Village, que foi invadido por bandidos buscando fuga. É que o condomínio com nove prédios tem passagem para a outra rua... No fim da tarde, sem guerrilha e com aparente calmaria, ele veio pra minha casa e me contou que achou tudo muito engraçado. Eu fiquei pasma. Perguntei porque. “Ah, é que depois a gente ficou brincando de achar bandido foragido no condomínio” “Meu filho, você ficou na janela no meio daquele tiroteio?” “Não mamãe, na hora dos tiros eu fiquei brincando no corredor, isso foi depois” – As duas crianças de oito anos, ainda bem, acharam algo de divertido pra tirar dali. É que nós somos adultos e sabemos. Foi grave. Muito grave. Um morto, onze feridos. Que a gente saiba. Cadê a UPP da Rocinha?


Mais tarde, no Facebook, a mesma amiga do prédio onde se esquivaram os policiais postou: Ufa, passou o susto. E eu me pergunto: Pra quem? Dos setenta, só dez foram presos. O tráfico continua aí. O Ném vai sumir por alguns dias, mas daqui a uma semana ou duas, a "L." vai cruzar com ele no caminho pra igreja. Com ele, seus funcionários e todo o equipamento de última geração. A bandidagem rolando solta, a corrupção, o terror, a insegurança, a falta de estrutura educacional, de investimento em saúde. Mães continuam dormindo no papelão pra acordarem na fila de vagas na escola. E o ensino público diz: Não. Não há vagas. Os filhos vão para uma outra escola, onde tem sim uma vaga. Mas qualquer dia desses uma dessas mãe senta ao meu lado no ônibus dizendo: "Só teim sussego quando minha fia volta da escola. Ela tem que sair de lá com grupim das amiga,senão, minha fia, se não tem os que bate. Ih... tem fotógrafo estrupadô... Eu só teim sussego quando minha fia bota os pé em casa." Eu não tenho sossego enquanto minha filha não chega da escola... da escola...


É ano de eleição e a política dá cada vez mais vergonha, cheia de ladrões do mais alto escalão. Malandros de terno e gravata. E pelo visto nossos votos não servirão para muito mais do que substituirmos uns canalhas por outros. Desejo nulo de votar. A gente faz o que com isso?É o que estou me perguntando, de verdade. De verdade.






elA

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

OFICINA : PROCESSO INVESTIGAÇÃO PARA MONTAGEM DE ESPETÁCULO

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AULA INAUGURAL GRATUITA- DIA 13 DE AGOSTO (sexta) 14:30 às 17:30.
BASTA AGENDAR PELO EMAIL
escola@arteemmovimento.com.br


A proposta do trabalho é , através da investigação e construção colaborativa entre os alunos-atores e o professor-diretor, experimentar um processo de criação de um espetáculo teatral.
Com estímulo de textos literários , improvisar a partir dos viewpoints, circunstâncias estruturadas por antecedentes, objetivos e graus de relação e sistemas de interrelação - e a partir daí, construir uma peça onde todos serão co-autores do trabalho com dramaturgia finalizada pelo professor-diretor.

O espetáculo montado cumpre temporada de um mês.


INÍCIO: 20 de AGOSTO
DURAÇÃO: 4 MESES
SEXTAS E SÁBADOS
14:30 às 17:30
INVESTIMENTO: R$240,00
Atores com DRT ou ex alunos: R$215,00


O curso acontecerá na Escola de Dança e Centro Cultural Arte em Movimento.
Endereço: Estrada da gávea, 638 - São Conrado

Informações: (21)3322-1052 | (21)7612-4088 www.arteemmovimento.com.br




A primeira edição do curso de montagem foi montada em 2009 numa parceria com a Escola & Ateliê e culminou no espetáculo "Um dia de festa":


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EMENTA
Investigar os processos de construção de uma escrita cênica e dramatúrgica a partir da literatura, de improvisos, sistemas e circunstâncias.


PROGRAMA DO CURSO

Aquecimento:
. Alongamento
. Pesquisa de grupos musculares e níveis de tensão muscular;
. Exercícos de exaustão como prepração para um estado de prontidão física.


Pesquisa Dramatúrgica:

· Trabalho sobre as circunstâncias propostas para a criação de cenas e aplicabilidade das ferramentas cênicas:
- Sistemas de interrelação - Jogos com objetivos secretos para os atores, antecedentes, graus de relação na circunstância - Trechos de diálogos prédeterminados pelo professor - Depoimentos - Narrativa dos Acontecimentos - Descrição do ambiente circundante - Silêncio - Ação - - Revelação - informação secreta (monólogo interior) - Lembrança - Caracterização da personagens
· Improvisações baseadas na estruturas dos viewpoints para a criação de fragmentos de cenas
- Exercício foco-leve;
- Raia: o estímulo resposta e a visão periférica;
- Criação no espaço: relação espacial, arquitetura, forma, gesto topografia;
- Criação através do tempo: estímulo-resposta, duração, repetição, tempo (andamento);
- Criação sobre o som e a palavra: repetição, aceleração/desaceleração, tempo (andamento), dinâmica, -volume, timbre, silêncio;
- Improvisação sobre os pontos de referência adquiridos como ferramenta e vocabulário de criação


Pesquisa Cênica:

· Construção de cenas a partir de material coletado na pesquisa anterior
· Estudo de dramaturgia
· Trabalho de marcação do espetáculo com texto



Bibliografia:

PAVIS, Patrice. Dicionário de teatro. São Paulo: Perspectiva, 1996.
BOGART, Anne; LANDAU, Tina. The Viewpoints Book: A Practical Guide to Viewpoints and Composition. Theatre Communications Group: 2006.
OSTROWER, Fayga. Acasos e criação artística. Rio de Janeiro: Elsevier,1999.
GUINSBURG, Jacó. Semiologia do teatro.São Paulo: Perspectiva, 2003.
BROOK, P. A Porta Aberta, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2002
WATZLAWICK, P.; BEAVIN, J.H.; JACKSON, Don D., Pragmática da Comunicação Humana, São Paulo - Editora Cultrix, 2005
LEHMANN, H.T. Teatro Pós-Dramático, São Paulo, Cosac Naify, 2007;
KELEMAN, Stanley. Anatomia Emocional, Summus, São Paulo, 1992;
GROTOWSKI, Jerzy. Teatro laboratório de Jerzy Grotowski 1959 - 1969. São Paulo: Perspectiva, 2007






quinta-feira, 5 de agosto de 2010

OS ACASOS SOMOS NÓS


Artista plástica atuante em diversas áreas (gravura, pintura, desenho, ilustração, docente, teórica), Fayga Ostrower é uma figura importante no campo das artes e possui diversas publicações, dentre as quais destacaremos neste momento “Acasos e Criação Artística”. Neste livro, publicado em 1990, ela lançou a seguinte questão: Não existe criação artística sem acasos. Mas será que existem acasos na criação?
A autora inicia o primeiro capítulo de seu livro se perguntando se são apenas meras concidências aqueles que nos parecem acasos significativos. Logo, ela se pergunta se, ao invés de estarmos fortuitamente atravessados por um acontecimento revelador, estamos, na realidade, percebendo algo que atende às necessidades da nossa própria subjetividade.
Fayga cita um fato de sua própria experiência criativa: Certa vez, ela estava recolhendo os materiais de trabalho – chapas para as gravuras, tintas e jornais que ela usara para cobrir o chão. Num lapso de instante em que se levantava, um feixe de luz que atravessou a janela fez cintilar uma macha e aquilo lhe chamou a atenção. Ela jogou no lixo o jornal, mas a mancha reverberou de tal modo em sua memória que veio aparecer mais tarde em sua criação. E ela se perguntara porque nas outras dezenas de vezes que ela procedera da mesma forma, com os mesmos materiais, ela nunca havia reparado nas manchas ou as percebido com tamanha fascinação.
Após citar sua experiÊncia, a artista plástica cita também um desses acasos ocorridos com um colega fotógrafo, que descobrira acidentalmente, a partir de um erro, um novo conceito para seu trabalho. Ele, sem saber, utilizou duas vezes o mesmo filme e, ao revelar, descobriu imagens justapostas aleatoriamente, mas que dialogaram perfeitamente culminando numa bela composição.
De acordo com a autora, cada artista terá seu próprio repertório de acasos, mas para se tornarem acasos, eles têm de ser percebidos por nós. E ela lembra: o que é a vida senão uma série de acasos consecutivos e desconexos? Afinal, somos bombardeaos a todo tempo de estímulos de toda ordem: temperatura, movimentos, sons, cheiros, cores, texturas – imagina se pudéssemos percebê-los, todos? Esses que percebemos podem se tornar acasos..
O fato aqui apontado, é que existe em nós uma seleção. E a importância que dedicamos a certos eventos fala de algo que já está acordado, ainda que de forma não consciente, na nossa subjetividade. A isto, Fayga chamará de acaso significativo e afirmará então que estes não são, de fato, programados, elaborados ou previstos - mas sim, já eram de alguma forma esperados: “as pessoas estão é receptivas; receptivas a partir de algo que já existe nelas em forma potencial e encontra no acaso como que uma oportunidade concreta de se manifestar. Por mais surpreendentes que sejam os acasos, eles nunca surgem de modo arbitrário…”
A cada indivíduo um manancial de necessidades, de desejos, memórias, potencialidades intelectuais e sensíveis. Em cada indivíduo um estado de espírito, um aqui, um agora, uma paisagem invisível. E Fayga diz, ainda, que apenas com a maturidade é possível reconhecer-se em seu potencial criador. E que a criação da identidade se dá no ato da assimilação desses acasos significativos e no entendimento de sua importância. São as escolhas que constróem caminho.
De acordo com a perspectiva de Fayga sobre os acasos, poderíamos dizer que os acasos nos revelam mais sobre nós do que sobre eles mesmos. E, segundo a autora, isto é também um dado de maturidade, uma vez que no universo infantil a percepção se dá a partir de um todo não diferenciado, sem qualificação na unidades que, interligadas, compõem.
Ela volta a afirmar que a fonte da criatividade artística é o próprio viver e que os acasos podem ser caracterizados, portanto, como momentos de elevada intensidade existencial. E para dinamizar sua reflexão acerca do tema, a autora recorre a comentários de diversos artistas, dentre os quais destaco o trecho de Pablo Picasso selecionado pela autora: “O importante na arte não é buscar, é poder encontrar”
Adiante, o capítulo investiga a inspiração sob o ponto de vista da psicanálise e se defronta com o olhar freudiano que aponta nos processos criativos questões relativas a infância, traumas e aspectos de campos recônditos das mente. Recorrendo principalmente a Ernest Kris, Fayga afirma que, no enfoque psicanalítico, a inspiração ainda é caracterizada como um processo de passividade, uma vez que o indivíduo está sujeito as manifestações inconscientes e rendido aos processos psíquicos desencadeados na infância. Fayga, todavia, discorda das teorias psicanalíticas e coloca ainda que estas interpretações estão sempre em busca de diagnóstico e ignoram estilo e os conteúdos expressivos da imagem, qualificando-as como meras ilustrações. O maior problema aqui apresentado pela autora é que não existe arte sem estilo. E o estilo é algo que caracteriza a escolha de linguagem, característica da fase adulta. Ela não duvida da influência dos desejos, traumas, culpas e recalques em geral do inconsciente nos processos criativos, mas não o definem. Afinal, como antes já estava dito, ela acredita que o trabalho artístico acontece a partir de toda a experiência de vida do criador. E só com processo de adultificação um indivíduo se torna capaz de discernir, elaborar, aplicar as ferramentas adquiridas apontando para um fim - a criação é uma conquista da maturidade.
Com base nisto, Fayga cita a mudança estilística de Monet do Impressionismo para o Expressionismo. E diz que apenas as novas realidades internas do artistas tornaram esta tranformação possível.
Ainda sobre o olhar psicanálítico para a inspiração e os processos criativos, a artistica plástica sugere que faltam ferramentas analíticas que possam interpretar os discursos não-verbais, e por isto esta lacuna entre artes plásticas e psicanálise.
Assim, Fayga Ostrower admite que a criação compreende em seu ato a totalidade do indivíduo considerando os planos do inconsciente tão indispensáveis quanto o consciente. E lembra que mesmo as expectativas inconscientes, quando se depararm com os encontros ao acaso, são sacudidas e desencadeiam intensos processos psíquicos. Isto é, o estado de disponibilidade receptiva é ativo e não passivo como defendido pelo psicanalista Kris.
Estamos escolhendo a todo tempo. E a percepção faz também parte disso. Mas já que a maturidade e os processos de adultificação nos permitem maior potencial de construção, que nível de escolha temos quanto a nossa própria receptividade? Quanto podemos alterar nossos padrões perceptivos? Isto não constrói, também, estilo?

Arte - Teatro, cinema e poesia numa só moda!


Quem não conhece aquelas almofadas, bolsas, canecas e uma série de outros objetos estampados com imagens do cinema? Tem até pantufa, sabiam? Pois é, o que alguns ainda não sabem é que a autora destes trabalhos é uma jovem com muitas outras criações a revelar.


Tatti Simões é artista plástica formada em comunicação, mas vem mesmo é do meio teatral. Foi com toda esta trajetória que ela chegou ao mundo da moda. Desde 2001 atuando neste mercado, seus artigos passaram pelo Mundo Mix, Babilônia Feira Hype, lojas do Grupo Estação de cinema e até lojas de museus, mas foi em 2003 que ela lançou a sua marca de design à qual batizou com seu próprio nome.

Toda esta bagagem artística aparece nas coleções de Tatti. Inspiradas no cinema, no teatro e na poesia, suas roupas transbordam criatividade. Apresentam um universo lúdico e poético com uma abordagem completamente original. Não é difícil perceber que por trás daquelas roupas tem alguém que não se intitula uma estilista, mas uma artista plástica que aplica sua arte nos tecidos recortados em estilosos moldes de saias, blusas e vestidos – “Porque eu queria mesmo era pegar um vestido e pintar como se fosse um quadro mesmo, entendeu?”- ela explica .


A coleção Alice no país das Maravilhas têm vestidos e saias bordados com personagens, cenas e trechos do texto de Lewis Carroll. Tatti dá um toque ainda mais autoral ao reinventar nas personagens algumas características: “Tem Alice ruiva, tem loira, tem castanha também”.entrevista site ao Bolsa de Mulher .



Além de Lewis Carroll, as poesias de Florbela Espanca e as flores de Frida Khalo também já foram inspiração e imagem de suas roupas. Enão somente esses renomados artistas são influência para suas criações. As próprias clientes também já puderam participar como co-autoras, fazendo de suas roupas peças realmente únicas e personalizadas. É que para o reveillon, Tatti chegou a lançar o look mais apropriado para a ocasião: um vestido bordado com nada mais nada menos do que os seus desejos para aquele ano. Era só pedir e o desejo era atendido em forma de linhas delicadamente bordadas. E tem novidade vindo por aí. Está saindo do forno a nova coleção: Quem quer vestir Shakespeare? Nas versões rosa e roxa, ficaram prontas as estampas que se basearam no universo do maior gênio da dramaturgia inglesa e universal. E já já poderemos desfilar o seu teatro por aí.


Além de trazer cinema, teatralidade e poesia para a moda,Tatti Simões leva o universo da moda às telas. Em seus quadros podemos perceber a forte presença da moda e do romantismo nas figuras femininas que aparecem com volumosos vestidos e, na maioria, são noivas.


Mesmo com uma rápida passagem pelo site, vemos os traços de encantamento e fantasia que caracterizam a arte e a moda de Tatti Simões. Em animação, o layout do site reproduz um cenário teatral cujos móveis expõem as roupas e acessórios da loja. Uma personagem vestida com um figurino assinado por Tatti entra em cena, liga a vitrola e sai. E, ao som de "La vie en rose", de Piaf, nos deixa todo aquele universo lúdico a explorar. Se você curte teatro, cinema, poesia ou moda, precisa conhecer a arte de Tatti Simões.



A obra de Tatti pode ser apreciada e adquirida através desse delicioso site http://www.tattisimoes.com.br/ ou mesmo na sua loja, que fica na Rua Visconde de Pirajá, 580 – 3 Piso em Ipanema, no Rio de Janeiro.




FONTE: www.tattisimoes.com.br | Bolsa de Mulher





quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Carta a um admirável diretor

Oi Jefferson,



fiquei pensando quinze mil duzentas e quarenta e nove vezes se eu te mandava esse email. Nada demais, mas incrível como uma coisa banal as vezes nos faz pensar demais. Imagina... Se eu mando ou não um email. è que as vezes as banalidades contém tantas outras coisas que... Bem, o fato é que assisti as peças e seus trabalhos sempre mexem comigo de uma forma que eu sei essas minhas palavras aqui não vão dar conta de explicar, mas mesmo assim vou fazer o possível. E a dúvida entre enviar e não enviar o email foi: "Caramba, o Jefferson não é muito dado a elogios, não vou mandar... Mas o trabalho é lindo, vale a pena ser comentado, ele não vai se incomodar. Ah, mas vai parecer piuguice. Ah, mas eu sou piegas, ué, qual o problema em ser pieguas?" Enfim, monólogo interior bombando só com o simples fato de mandar ou não uma porra de um email. Caralho, se todos os problemas do mundo fossem como essse... "Ah Alessandra, manda logo isso e pára de gracinha, vai!" Decidi mandar, já tô mandando.






Quarta-feira, estréia do 21.1. Não lembro ao certo que horas mas era a tarde e eu estava em casa pensando em que objeto levar, remexendo minhas pessoalidades, minhas memórias, minhas lembranças, pensando em que parte da minha vida valia a pena ser remexida. E um estalo: cara, que maneiro isso. Eu estou aqui, na minha casa, no meu quarto, com as minhas coisas, e o espetáculo já começou. E adorei isso, sobretudo porque em março apresentei a minha monografia e meu trabalho consistia justamente na minha própria história sendo dividida com o público através dos meus objetos que iam aos poucos sendo guardados em caixas de papelão. Era um péríodo de mudança na minha vida, conclusão da minha faculdade, minha pessoalidade sempre esteve em cena desde o primeiro período e foi a forma mais sincera que encontrei de concluir aquele ciclo de vida e arte, não necessariamente nessa ordem, mas certamente intrinscecamente ligados. O nome do trabalho monográfico é "Sobre Nós - um diálogo entre poesia, composição e improvisação na transpósição do pessoal para o artístico". Mas não estou aqui para falar do meu trabalho, no entato não pude deixar de falar, já que o que eu vivi no 21.1 tinha essa minha experiênciacomo antecedente. E já foi muito bacana remexer meus objetos para levá-los a um espetáculo, imagina fazer isso depois de ter feito um espetáculo com os meus próprios objetos... enfim, eu estava adorando aquilo. Cheguei no Sesc e a... ai, esqueci o nome dela agora.... Ah! A Liliane me pediu meus objetos. Entreguei a ela e quando vi, ela os estava guardando dentro de caixas de papelão! Virei para o meu amigo e falei: "Alê, olha, caixas de papelão!" Fiquei curiosíssima querendo saber o que eu ia encontrar lá, se ia ser parecido com o "sobre nós", se não, o que ia ser feito com os objetos pessoais do público, se iam nos inserir na cena, se iam, de que maneira o fariam (confesso que essa parte me deixou beeeeeeeem aflita! Tanto que a Miwa perguntava alguma coisa e as minhas respostas monológicas tinha por dentro um coração disparado dentro de um corpo duro e retesado. Menino, tenho pavoooooor dessas coisas. E ainda inventei de ser atriz, vai entender! Vai ver é isso, que é mais fácil estar dentro do que fora de cena)?Na cara e na coragem, entrei. E a cada instante eu ia me apaixonando mais. Aquele clima estável, conversa, todos temos uma história, de quem será esse objeto e que história esse objeto vai contar... o que cada um vai falar, como as pessoas vão se mostrar... Não sei dizer, Jefferson, mas sem catarzes o trabalho foi muito provocador, sabe? e que coisa mais linda a Miwa revelando no final que era o pai dela, aquele homem que vinha, e a mãe aquela mulher que esperava... E Jesus, maria, José, se eu tivesse no lugar do cara que ela pediu pra tocá-la no final... Eu nem sei, acho que ia ficar catatônica, estática, completamente paralisada. se mal eu conseguia responder as perguntas triviais que ela me fazia, rsrsrsrsrrs Imagina estar ali, diante de uma mulher nua, pedindo para ser tocada, na frente de vinte e tantas pessoas... Esse incômodo, esses lugares em que seus trabalhos nos colocam... É genial. E no fim, uma pergunta: será que a história do Leandro é verdadeira, será que os objetos são mesmo da avó dele? Será que aquelas trocas de cartas são reais? Será que o que a Julia disse era verdade? Sair provocado por tudo isso, é genial... E mais: como a falta de aplausos é maravilhosa, a continuidade que isso provoca. Começou como terminou, sem rupturas, sem quebras, sem dizer aqui começa ou aqui um "espetáculo". Tudo faz parte da vida. E adoro ver isso... Vida e arte tão misturadas, sem se confrontarem, sem perguntar onde começa e termina uma e outra coisa. Divino. essa questão me ronda tanto. Sei que ronda a arte contemporânea de um modo geral, mas ver acontecer, viver acontecer num a experiência como a tua proposição 21.1 é sempre bom demais. Obrigada por esses instantes, obrigada por me dar a oportunidade de me transformar e afirmar essas questões na minha vida, na minha arte - "em mim", talvez seja melhor dizer, para não separar levianamente uma coisa que está tão misturada com a outra.






Sábado, 05 de setembro, fui assistir 21.2. E mais uma vez fiquei encantada. Entrei ali, naquele bar, sentei e durante praticamente toda aquela 1h40 eu me sentia plena e admirada. Uma encenação tão simples e tão sofisticada ao mesmo tempo. É tão difícil qualificar o teu trabalho, Jefferson, porque eu acho que é justamente isso que ele faz. É como se ele descategorizasse as coisas e colocasse vida nelas. Sem a necessidade das decodificações. Ai, e aquele vestidoooooooooooooo, pelo amoooooooooor Deus, pai santíssimo e amadoooooo. Que coisa mais laranja e mais maravilhosa é aquela? Mas o mais bacana de tudo, é que a primeira coisa que me veio a mente quando a Luisa entrou em cena foi: "Gente, que mulher magra é essa?" A magreza dela era impressionante e me agoniou um pouco, até porque eu nunca a tinha visto pessoalmente e não podia imaginar que ela era tão magra. Até porque, sei lá porque, uma cosia engraçada, acho que a Luisa não tem cara de pessoa magra, sabe? Enfim, isso não vem ao caso. O fato é que pouco tempo depois, aquela magreza agoniante já tinha desaparecido dos meus olhos, porque o que eu via naquele dois, entre aqueles dois tomou proporções inomináveis. A gente está tão acostumado a ir ao teatro e ver personagens, e ver histórias, grandes cenários, e ver tanta coisa... O bacana ali era que eu estava vendo gente. E pra mim não tem nada mais deliciosa em teatro do que ver gente. Ontem mesmo, eu estava assistindo uma entrevista com o Matheus Nachtergaele e perguntaram a ele algo como que tipo de ator irrita ele quando ele está como diretor. Ele respondeu que ele gosta de todo tipo de ator, mas a única coisa que irrita ele é gente que não está verdadeira mente envolvida com o que faz, gente que não se mela daquuilo que está fazendo, que ele gosta de ver algo parecido com a vida. E acho que ele estava falando disso que eu vi ali. E acho que na verdade não é algo que se parece com a vida, né? Acho que é algo que é vida. Pelo menos pra mim, foi. Além de tudo isso, eu ainda estava vivendo um momento parecido com um instante que o casal Luca e hors viveu: a separação. eu estou vivendo um momento bem parecido e e olhei pra aquilo e vi tudo tão de verdade, vi tudo tão ali... o silêncio de uma separação, a incomunicabilidade, o estranhamento que acontece entre duas pessoas que até ali eram tão cúmplices, o abismo que se faz entre dois que já estavam tão misturados que nem sabiam mais o que ra de um ou de outro. E o vácuo que acontece dentro da gente. E o choro ininterrupto do fim, o entender que ali, acabou. Nesse omoento eu pensei: Gente, cadê a serra, porque uma gilete é pouco pra cortar os pulsos, rsrsrs. mas foi só um pensamento distaciado, entendeu? Eu não estava me sentidno assim! Eu me identifiquei com aquilo, era bonito, era verdadeiro, era denso, mas não era ua catarse trágica! E falei: filho da puta! Como que consegue fazer isso? Algo tão profundo, tão humano, tão verdadeiro sem ser excessivo, visceral a quinquagésima potência. Era para eu estar querendo cortar os pulsos, mas eu estava apenas identificando na Luisa o que de mim existia naquela vivencia. E esse "apenas" é tanta coisa... Aí eu me lebrei de uma frase que ouvi quando eu estava no primeiro período da faculdade, numa aula de teoria, o professor pergunatnd: Para que serve a arte?" E vendo 21.2 eu pensei: Cara, isso aqui me pergunta através da arte pra que serve a vida, e agora eu vou sair daqui, e vou me perguntar pra que serve a arte através da minha própria vida. E me lembre porque eu fui procurar fazer teatro da vida, pra que eu fui procurar escrever da minha vida, porque eu fui procurar fazer arte da minha vida e vida da minha arte... a vida por si só não deu conta dela mesma... e acho que a arte também não. Mas se não existe uma coisa nem outra separadamente, eu já estou me contradizendo, mas não tem problema, sinto que é algo por aí. E seus trabalhos sempre me ajudam a pensar sobre isso, a viver isso, a continuar me perguntando... Só que o mais belo disso tudo, é que parece que os teus trabalhos são tudo isso sem a pretensão de ser, e só por isso são, entendeu? Cara, parabéns de verdade, do fundo do coração (coisamais cliché e piegas... mas é verdade), é muito gratificante ter a experiência de entrar num teatro e experimentar tudo isso. Coisas que eu levro pra minha vida e que são, pode ter certeza, um aprendizado artístico, sempre. Um parabéns muito grato pra você e todos que estiveram presentes aí construindo esse trabalho. Vou colar aqui um poema que eu escrevi no ano passado, logo no início do meu processo de monografia... Acho que tem um pouco a ver com tudo isso, embora não dê a dimensão de nada do que eu vi...









TÍTULO


Quero ser no palco
letra de biografia romanceada
n'alma o que eu queria
era ser puro verso de livre poesia

e na vida , este conto inacabado,

o que eu poderia senão

essa mais plena ficção?.


.
...



Reticências no espaço do pensar diriam:
Se não houvesse nesse coração estúpido
tamanha pretensão
quereria mesmo ser versos sem rima
amor sem endereço
carta sem destino
ponto sem final
porque no fim
tudo vira vírgula
nada
no meio de qualquer coisa
sem essa de virar canção,
arte comentada,
bibliografia recomendada
nessa pobre rima
esse particípio que já foi
quisera tanto que esqueceu de ser

Esse querer mais-que-perfeito...
Há um tempo falando também
do futuro de um que se escondeu lá atrás
não se tocou que seu presente não tinha conjugação
talvez nem verbo
nem coisa nenhuma


E sem querer,
já é.


elA






Uma pena eu não ter assistido 21.3, ainda mais pq é com a Julia. Estou torcendo para que vocês ocupem outro espaço aqui no Rio. Vocês tem essa intenção? Bom, não sei se eu disse tudo, mas acho que eu disse o mais importante. Desculpe a pieguisse e os excessos... Tô trabalhando o comedimento, eu juro. Um dia eu consigo! rs.
Um beijo grande,
Lelê